Publicado por: nataliakeri | 13/04/2010

Madalena

Abriria os portões da universidade com suas garras afiadas em horas de estudo. Agora dormia serena, confiante no futuro porém sem a ansiedade do presunçoso.

Ingressar no curso de medicina era apenas uma questão de tempo. Odiava os professores da velha escola que, ao encontrá-la pelas ruas do bairro, desejavam-lhe boa sorte. Recorrer à roda da fortuna só é necessário aos despreparados.

Acordou cedinho no dia do exame, tomou café da manhã, pegou o estojo, os documentos, um chocolate e um abraço da mãe. Marchou até a estação de subúrbio e esperou um pouquinho. saltou para o trem e iniciou sua viagem.

A locomotiva e os vagões deslizaram até a metade do caminho e estacaram. O tempo passava e a cobra de metal continuou empacada no meio do mato.

Os dados já haviam sido lançados muito antes da estudante perceber que perderia o exame. E já tinham determinado que a felicidade de Madalena seria adiada por um longuíssimo ano.

Publicado por: nataliakeri | 16/03/2010

Dafne

De todas as características do marido, aquela de que ela mais gosta é o ronco. Sonoro e profundo, o ressonar às vezes acorda as crianças e inquieta o cachorro. Mas, para ela, é o momento mais aguardado do dia, quando o destino decreta mais uma vitória.

Deitada sozinha na cama, ela está sempre assombrada por um toque de telefone. Há então uma conversa formal. No momento em que os alicerces da casa começam a ruir, o pesadelo é interrompido pelo santo ronco. O marido havia chegado nas pontas dos pés e já caíra em sono profundo, imediatamente após a cabeça tocar o travesseiro.

Mais um dia ele voltava para a casa vivo, mais um dia a família estava protegida. Ela tratava então de dormir tranquila. Até porque em algumas horas retomaria a rotina de suspense, até que a morte os separasse.

Publicado por: nataliakeri | 02/03/2010

Lúcio

Sua grande alegria começou com uma pane no elevador, que provocou uma instigante espera de vinte minutos para descer dezeseis andares.

No hall do andar, aquela era mais uma porta fechada, com um número e um capacho regulares. Inquieto pelo atraso, foi surpreendido por uma sorrateira fuga de notas musicais. Por baixo daquela soleira, um tango ia escorrendo.

Durante toda a tarde, a melodia apareceu em seus pensamentos. Somente alguém muito especial lançaria aqueles sons ao ar.

Dia após dia, barbeava-se mais rapidamente para passar uns poucos minutos em respeitosa espionagem daquela porta. Punk rock, samba-canção, mangue-beat ou salsa eram as pistas do tesouro que haveria atrás das fechaduras.

Chegou radiante ao escritório quando insinuaram-se pelas dobradiças uma voz jovem e feminina acompanhando uma música de amor frustrado.

Clicou na pasta “Porta”, conectou o fone de ouvido e tocou as músicas que havia baixado nas últimas semanas. Em qual melodia se encaixaria melhor o som estridente da campainha?

Publicado por: nataliakeri | 17/12/2009

Vicente

Em um leito de concreto, coberto por uma garoa fina, ele enterrava seus últimos sonhos.

A gente sufocava seus pensamentos, a luz ofuscava seus olhos, o nó na garganta e na gravata vermelha não o deixavam em paz.

As andanças tinham acabado com o brilho dos sapatos e do olhar. Habitava um labirinto intrincado, lotado de visões repugnantes. Cada esquina era um novo soco no estômago.

Poucos eram os que encaravam as covas dos seus olhos. Poucas foram as que tocaram sua pele fria e seca.

Sua presença apenas fazia sorrir os donos dos bares, na hora de receberem o pagamento impecável e diário.

Mantinha um casamento fracassado com a própria vida. Não era pessimista: simplesmente já não esperava que nada emergisse dos abismos por onde vagava.

Durante o último gole da noite, afundava no pleno silêncio da desesperança. Vivia há anos pendurado no suspense do último segundo antes da tormenta.

Publicado por: nataliakeri | 20/08/2009

Hélio

E de repente o azul ficou muito muito tímido. E nós, que estamos acostumados a viver na sua cavidade colorida e alegre, acordamos dentro de um chumaço de tule empoeirado.

Dia após dia, um curativo de gaze encardida cobria o céu. O machucado se espalhou para o coração das pessoas. Melancolicamente, a cidade ia se arrastando de casa ao trabalho e da labuta para o lar.

Só de vez em quando o véu ficava menos franzido e espesso, deixando uma pontinha de esperança à vista. Tudo bem rapidinho.

A população, revoltada, passou a exigir que uma associação de terapeutas, em parceria com a Nasa, preparasse uma ação de combate ao acanhamento da cor primária.

Tudo isso acontecia enquanto Hélio passava os dias deitado na cama, com as persianas fechadas.

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