Publicado por: nataliakeri | 20/08/2009

Hélio

E de repente o azul ficou muito muito tímido. E nós, que estamos acostumados a viver na sua cavidade colorida e alegre, acordamos dentro de um chumaço de tule empoeirado.

Dia após dia, um curativo de gaze encardida cobria o céu. O machucado se espalhou para o coração das pessoas. Melancolicamente, a cidade ia se arrastando de casa ao trabalho e da labuta para o lar.

Só de vez em quando o véu ficava menos franzido e espesso, deixando uma pontinha de esperança à vista. Tudo bem rapidinho.

A população, revoltada, passou a exigir que uma associação de terapeutas, em parceria com a Nasa, preparasse uma ação de combate ao acanhamento da cor primária.

Tudo isso acontecia enquanto Hélio passava os dias deitado na cama, com as persianas fechadas.

Publicado por: nataliakeri | 12/08/2009

Elias

Trabalhava a tanto tempo como cobrador da mesma linha de subúrbio que sua vida poderia ser medida em quilômetros rodados.

As crianças, que passavam por baixo da catraca quando era um novato na viação, agora caregavam nos braços seus próprios bebês.

Poderia escrever um biografia dos moradores do bairro, em suas viagens pendulares rumo ao centro da cidade. Mas não eram só os passageiros que envelheciam: o subúrbio crescia, as casas eram construídas e mudavam de cor, o comércio prosperava e falia.

A esse épico filme ele assistia através dos vidros sujos, ao som do girar da catraca do coletivo.

Publicado por: nataliakeri | 24/07/2009

Evandro

Não estava muito bêbado. Atrás do tufo de fumaça de nicotina e alcatrão, dois pequenos feixes de neon verde cintilaram.

Atravessou o mar em rebentação da pista de dança ao som dos Ramones, abduzido por aqueles dois discos voadores melancólicos.

Nenhum evento natural ou sobrenatural impediria o inseto de se aproximar das lâmpadas, instaladas na íris da moça.

Acordou no dia seguinte com um longo fio de cabelo negro no travesseiro ao lado.  E a maior sede que sentira na vida.

Publicado por: nataliakeri | 14/07/2009

Robson

Com o cansaço do fim da jornada de trabalho, e mesmo com o trânsito, todo mundo no ônibus persistia em conversar. Se a moça morena não estivesse sentada bem perto da catraca, o cobrador nem teria ouvido a tadinha reclamar de como era ruim passar o Dia dos Namorados sozinha.

Do alto de seu assento, vestindo o uniforme da viação e seu melhor sorriso, ele lançou a pergunta:

- Você apaixona fácil?

- Sim… – respondeu a moreninha encabulada

- Qual a sua faixa etária?

- 20 anos.

- Você é carinhosa? – seguiu o cobrador na entrevista, que duraria todo o tempo que o engarrafamento permitisse.

Publicado por: nataliakeri | 30/06/2009

Mariano

A rotação do acendedor do isqueiro era o gatilho da projeção do filme da sua infância. Acendia o cigarro e, entre uma baforada e outra, via-se pequeno, com as mãos desajeitadas, aumentadas pela luva de goleiro.  O menino ensaiava as bolas decisivas que ia agarrar, liberando um grito de alívio da torcida alvinegra.

Seus pensamentos se aconchegavam nestes lençóis perfumados e tenros das lembranças infantis. O corpo fumava, encostado no muro do restaurante onde trabalhava . Os olhos assistiam ao treino da molecada no campinho do outro lado da rua.

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